terça-feira, 29 de novembro de 2011

QUEM TEM MEDO DE NAN GOLDIN?



(Kate Moss, by Nan Goldin)



Pelo que leio no jornal, hoje, os curadores, diretores etc. do centro cultural Oi Futuro, do Rio de Janeiro têm, sim, muito medo de Nan Goldin. Tanto, que, simplesmente, censuraram sua exposição nesse centro, sob o argumento de que sua obra contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) brasileiro, que "proíbe o ato de produzir, reproduzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente".


Mas, quem é NAN GOLDIN?



É uma prestigiada e controversa fotógrafa americana (Washington, D.C., 1953), que teve sua primeira mostra solo, realizada em Boston em 1973, baseada em jornadas fotográficas realizadas em comunidades gays e transexuais da cidade. Goldin graduou-se na School of the Museum of Fine Arts, Boston/Tufts University em 1977/1978, onde trabalhou na maioria com impressões através do processo de Cibachrome e, após mudar-se para Nova York, passou a documentar o cenário new-wave pós-punk, simultaneamente à subcultura gay no final da década de 1970 e começo da década de 1980.




Suas fotos são, realmente, polêmicas: diz-se que retratam o medo, nas relações humanas. São fotos de relações sexuais hetero e homossexuais, explícitas e em várias posições, de masturbação e de uso de drogas. Em algumas delas, crianças pequenas aparecem na cama ao lado dos pais, que se beijam e se acariciam, nus.







Entremos no mérito da censura do Oi Futura: se eles dizem que a exposição fere o ECA, por que cogitaram de trazê-la? Faltou, primeiro, conhecimento e cuidado dos curadores. Segundo: se contratada a artista, que direito têm de censurar os diretores e curadores do tal instituto? Seria normal negociar com os expositores quais obras seriam expostas ao público em geral e quais obras seriam confinadas a ambientes não acessíveis a menores ou a pessoas "sensíveis". Mas, censura? Positivamente, estamos entrando num terreno perigoso e pantanoso de moralismos absurdos.







Há um evidente exagero no ECA. Que se preservem crianças e adolescentes, todos concordamos. Mas, diante de uma obra artística já estabelecida, não há o que discutir ou censurar. Isso é dar a mão à palmatória de moralistas imbecis e estúpidos, sempre prontos a querer impor novas e pequenas inquisições, como forma de controle da sociedade e, consequentemente, de impor sua visão tosca a todos, num acinte à liberdade de expressão.







E mais: essa mesma sociedade tão preocupada em preservar crianças e adolescentes permite sua exposição diária nas ruas e esquinas de nossas cidades, a soldo de "mães" e "pais" de ruas, falsos ou verdadeiros, numa exploração que nos enche de vergonha; permite o trabalho escravo de crianças em casas de "famílias" de bem, a troco de favores nem sempre cumpridos, como educação, saúde e bem estar; permite a exposição diária de crianças e adolescentes em bocas de fumo, onde consomem crack e outras drogas à vista de todos, como ocorre na chamada "cracolândia", em pleno centro de São Paulo; permite a exploração de jovens e adolescentes em trabalhos insalubres em inúmeras atividades perigosas, por todo o Brasil... E não faz absolutamente nada!








No entanto, uma exposição, que poderia ficar confinada a ambientes isolados aos olhos de crianças e adolescentes, de repercussão restrita a meios intelectuais e de interessados em arte, na cidade do Rio de Janeiro, não pode, não deve ser censurada por quem quer que seja, ou estamos diante da perspectiva de iniciar - se é que já não iniciamos - um novo e triste período de sufocação da expressão artística e da liberdade.








O mundo, vasto mundo, de conservadores, moralistas, censores e outros controladores da mente humana pode se tornar um lugar muito, muito ruim de se viver!






Nota: as fotos são, obviamente, de Nan Goldin, com destaque para algumas que causaram arrepios nos curadores/censores do Oi Futuro.


Ou seria Oi Passado?










sexta-feira, 25 de novembro de 2011

AMPARO JIMÉNEZ





Maria Amparo Jiménez nasceu no México, em 1949. Em 1961, já vivia em Cuba, onde estudou, formando-se em Veterinária, e onde trabalhou ativamente pelas causas feministas e humanitárias, principalmente atuando no “Programa Latino STOP AIDS Chicago”. Pela causa lésbica, escreveu para o jornal OUTLINES, de Chicago, dirigido ao público latino. Em Costa Rica, fundou o periódico CONFIDENCIAL, dirigido à comunidade gay e lésbica.



Poeta, publicou em 1990 o seu primeiro livro, “Bajo mi relieve”. De volta ao México, onde vive atualmente, acaba de publicar seu segundo livro, “No Me Alcanza/It’s not enough”.



Como se diz que pelo dedo se conhece o gigante, escolhi, para apresentá-la, primeiro, um poema simples e delicado, onde o dedo da poeta, literalmente, mostra sua sensibilidade e sua arte e, depois, uma envolvente onda de tesão. As fotos são de Carla Van de Puttelaar.




Obsequio



(A Rosamaría)








Este orgasmo,

tan celosamente
guardado
para tí,
hoy,
amorosa,
lo entregué a mi mano.





Entrega







Una ola rompe violenta

en la playa de nuestros cuerpos
nos inunda un rugido de mar
contra las rocas.
Al retirarse,
lenta,
nos deja una brisa erótica
que nos envuelve
uniéndonos
para siempre
en un beso.




terça-feira, 22 de novembro de 2011

A PRIMEIRA VEZ... DE LENITA!




Lenita? Quem é Lenita?


Se você, cara leitora e caro leitor eventuais desta “Lua” ainda não se deu conta, Lenita é a personagem central do romance A CARNE, de Júlio Ribeiro.





Desde que foi publicado, em 1888, provocou inúmeras polêmicas e, com certeza, povoou de sonhos embalados em punhetas e siriricas muitas noites mal dormidas de jovens de ambos os sexos, em tristes dormitórios de colégios internos por esses brasis afora.

Sim, colégios internos. Uma instituição fora de moda. Tanto quanto o livro.
Júlio Ribeiro é nosso naturalista de plantão e de carteirinha. Fã incondicional do mestre do naturalismo europeu, Émile Zola, a ele dedica o livro, chamando-o “príncipe dos naturalistas”.

O naturalismo, de breve existência, pregava o cientificismo e, por isso, leva ao máximo a ideia de que o homem é fruto de seus instintos. E Lenita, nossa heroína, é um bom exemplo.

Órfã criada na cidade pelo pai (a mãe morrera no parto), ainda virgem aos 22 anos (as jovens casavam-se cedo, não se esqueça), vai para o campo, uma fazenda escravagista, para tomar um “banho de natureza” que a cure dos males que a afligem, sem que ela saiba quais são. Não verdade, falta de sexo.

A vida na fazenda é contada com detalhes, com muitos termos científicos ou pseudocientíficos. E todos os acontecimentos têm um só objetivo: justificar a avassaladora força sexual da natureza de que é tomada a heroína, para chegar, já quase no final, ao esperado desfecho: a entrega de sua virgindade ao filho do dono da fazenda, depois que é picada por uma cascavel, sendo a cobra, aí, a metáfora explícita de seu desejo carnal.

Enfim, todo o livro é, na verdade, meio enfadonho, porque escrito numa linguagem datada do século XIX, com todos os floreados linguísticos da época, não deixando dúvidas quanto à perícia estilística do autor e da sua intenção de defender o amor livre, a sexualidade, como forma de tratamento de distúrbios físicos e – por que não? – mentais.

Com vocês, o capítulo central do livro A CARNE, de Júlio Ribeiro. As ilustrações são de Michael Zichy:





A PRIMEIRA VEZ DE LENITA





Lenita mudava de posição, revolvia-se na cama, não dormia, não podia adormecer.


Uma obsessão mordente subia-lhe da periferia do corpo, comprimia-lhe o coração, atordoava-lhe o cérebro.

Sentia picadas na pele, tinha calefrios, zuniam-lhe os ouvidos.



Sugando-lhe as feridas feitas pelos aguilhões da cobra, Barbosa retirara um veneno, mas deixara outro. Lenita nunca mais cessara de sentir a sucção morna, demorada, forte, dos lábios de Barbosa em torno às picadas, no peito do pé. A sensação estranha, deliciosa, incomportável que produzira essa sucção perdurava, vivia; mais ainda, multiplicava-se, alastrava. Era um formigamento circular que lhe trepava pelas pernas, que lhe afagava o ventre, que lhe titilava os seios, que lhe comichava os lábios.






E ela queria Barbosa, desejava Barbosa, gania por Barbosa.


Esperar até amanhecer: uma! duas! três! quatro! cinco! seis horas! Ouvir o tique-taque do relógio, lento, medido, regular, igual, metálico; monótono, impiedoso; ouvi-lo sessenta vezes por minuto, três mil e seiscentas vezes por hora, vinte e uma mil e seiscentas vezes nas seis horas que faltavam para amanhecer? Impossível!

Ergueu-se e, descalça, em camisa, inconsciente, louca, abriu a porta, atravessou a sala, abriu a outra porta, saiu na ante-sala, enfiou pelo corredor, parou junto à porta do quarto de Barbosa, a escutar.
E nada ouvia.

Dentro, fora, dominava um silêncio profundo, quebrado apenas pelas pulsações violentas do seu próprio coração.

Encostou o ouvido à fechadura, nada.

O seu ombro fez uma ligeira pressão sobre a folha da porta, e esta cedeu, entreabriu-se, chiando ligeiramente.

Uma lufada de ar quente, saturada de aroma de charuto havana veio afagar-lhe o rosto, os seios, o busto quase desnudo no decote grande da camisa. Lenita perdeu completamente a cabeça, entrou: em bicos de pés, sem fazer rumor, escorregando, deslizando, como um fantasma, abeirou-se da cama de Barbosa.






Curvou-se, apoiou a mão no respaldo da cabeceira, aproximou a sua cabeça do peito do homem adormecido, escutou-lhe a respiração igual, hauriu-lhe o cheiro másculo do corpo, sentiu-lhe a tepidez da pele.


Quedou-se por muito tempo nesse ambiente entorpecedor.

De súbito o braço com que se encostava falseou; ela caiu pesadamente sobre o leito.

Barbosa deu um estremeção, acordou sobressaltado, sentou-se, estendeu as mãos, encontrou-a, perguntou assustado:

– Quem é? quem é?

A cútis morna, cetinosa da moça, a macieza da cambraia que a envolvia em parte, o perfume de Peau d’Espagne que de seu corpo exalava, não lhe permitiam dúvidas; mas ele recusava a evidência dos sentidos, não podia crer. Achava absurda, monstruosa, impossível a presença de Lenita em seu quarto, àquela hora, naquela quase nudez.

E, contudo, era real, ela ali estava: ele sentia-lhe a carne quente, dura, apalpava-lhe a pele híspida(1) pelo desejo, escutava-lhe o estuar do sangue, o pulsar do coração.

Um tropel de ideias desordenadas agitou-se-lhe, confundiu-se-lhe no cérebro excitado; o raciocínio ausentou-se, venceu o desejo, triunfou a sugestão da CARNE.







Sentou-se rápido à beira da cama sem largar a moça, puxou-a para si, cingiu-a ao peito, segurou-lhe a cabeça com a mão esquerda, e, nervoso, brutal, colou-lhe a boca na boca, achatou os seus bigodes ásperos de encontro aos lábios macios dela, bebeu-lhe a respiração. Lenita tomou-se de um sentimento inexplicável de terror, quis fugir, fez um esforço violento para desenlaçar-se, para soltar-se.


Era o medo do macho, esse terrível medo fisiológico que, nos pródromos(2) do primeiro coito, assalta a toda a mulher, a toda a fêmea.

Baldado intento!

Retinham-na os braços robustos de Barbosa: em suas faces, em seus olhos, em sua nuca os beijos dele multiplicavam-se: esses beijos ardentes, famintos, queimavam-lhe a epiderme, punham-lhe lava candente no sangue, flagelavam-lhe os nervos, torturavam-lhe a carne.

Cada vez mais fora de si, mais atrevido, ele desceu à garganta, chegou aos seios túmidos, duros, arfantes. Osculou-os, beijou-os, a princípio respeitoso, amedrontado, como quem comete um sacrilégio; depois insolente, lascivo, bestial como um sátiro.






Crescendo em exaltação, chupou-os, mordiscou-lhes os bicos arreitados(3).


– Deixe-me! deixe-me! Assim não quero! implorava, resistia Lenita, com voz quebrada, ofegante, esforçando-se por escapar, e presa, todavia, de uma necessidade invencível de se dar, de se abandonar.

De repente fraquearam-lhe as pernas, os braços descaíram-lhe ao longo do corpo, a cabeça pendeu-lhe, e ela deixou de resistir, entregou-se frouxa, mole, passiva.

Barbosa ergueu-a nos braços possantes, pô-la, na cama, deitou-se junto dela, apertou-a, cobriu-lhe os seios macios com o peito vasto, colou-lhe os lábios nos lábios.

Ela deixava-o fazer, inconsciente, quase em delíquio, mal respondendo aos beijos frementes que a devoravam.





E corria o tempo.


Barbosa não podia prestar fé ao que se estava dando.

Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara o mundo, retirara-se com seus livros, com seus instrumentos científicos, para um recanto selvagem, para uma fazenda do sertão. Abandonara a sociedade, mudara de hábitos, só conservara, como relíquias do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir. Levava a vida a estudar, a meditar; ia chegando ao quietismo, à paz de espírito de que fala Plauto(4), e que só se encontra no convívio sincero, sempre o mesmo, dos livros, no convívio dos ausentes e dos mortos. E eis que a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma mulher virgem, moça, bela, inteligente, ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, força-o também a amá-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais: contra a expectativa, tornando realidade o improvável, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe o sono, entrega-se-lhe... Ele a tem entre os seus braços, lânguida, mole, roída de desejos; aperta-a, beija-a...

E... nada mais pode fazer!







Não que o detenham preconceitos, receio de consequências; não tem preconceitos, já não receia consequências.


O que o detém é um esgotamento nervoso de momento, uma impossibilidade física inesperada.

Debalde procura na concentração da vontade o tom da fibra nervosa, o robustecimento do organismo...

Sente o ridículo da posição, desespera, tem as mãos frias, banha-se em suor, chega a chorar. Afastou-se de Lenita, dementado, louco, escalavrando o peito com as unhas.

– Não posso! não posso! exclamou, ululou desatinado.

Deu-se uma inversão de papéis: em vista dessa frieza súbita, desse esmorecimento de carícias, cuja causa não podia compreender, nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia em bacante impudica, em fêmea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa, cingiu-o, enlaçou-o com os braços, com as pernas, como um polvo que aferra a preia; com a boca aberta, arquejante, úmida, procurou-lhe a boca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os lábios, beijou-lhe a superfície polida dos dentes, sugou-lhe a língua...

E o prazer que ela sentia revelava-o na respiração açodada; no hálito curto, quente; era um prazer intenso, frenético, mas... sempre incompleto, falho.

Barbosa arquejante tinha ímpetos de levantar-se, de tomar uma pistola, de arrebentar o crânio.

Pouco a pouco operou-se uma reação.

Sentiu Barbosa que, menos agitado, lhe circulava o sangue, que um calor doce se lhe expandia pelos membros, que o desejo físico se despertava, dominante, imperativo.

Recobrou-se de vez da passageira fraqueza, achou-se forte, potente, varão.
Com o ímpeto irresistível do macho em cio, mais ainda, do homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de atacante, estreitou a moça nos braços, afundou a cabeça na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado...

– Lenita!

– Barbosa!

E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que deixara de o ser...






Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de carícias ferozes, em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne entrava pela carne; em que frêmito respondia a frêmito, beijo a beijo, dentada a dentada.


Desse marulhar orgânico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo, por entre os estos curtos das respirações cansadas, ofegantes.

Depois um longo suspiro seguido de um longo silêncio. Depois a renovação, a recrudescência da luta, ardente, fogosa, bestial, insaciável.

Pela frincha da janela esboçou-se um rastilho de luz tênue.

Era o dia que vinha chegando.







– Deixe-me! deixe-me, Barbosa! É preciso ir, está amanhecendo, está clareando.

– Não, não! ainda não! aquilo não é o dia, é o luar.

– Vou! deixe-me, deixe-me.

E, fazendo um esforço violento, Lenita escapou-se do leito e dos braços de Barbosa.

No desvão da porta entreaberta enquadrou-se, por um momento, a sua sombra indecisa. Desapareceu.

Barbosa ergueu-se, vestiu-se rapidamente, saiu, fechou a porta tirou, guardou no bolso a chave.

Lenita do seu quarto ouviu-lhe, contou-lhe as passadas que ressoavam fortes.
A moça estava com febre; tinha a cabeça em fogo; sentia-se zonza, atordoada; via a todo o momento discos luminosos, com um núcleo que se alargava, cambiando de cores, passando do verde-escuro ao vermelho-cobre; ardia-lhe a garganta, a boca estava peganhenta.

No quarto deserto de Barbosa o rastilho de luz, coado pela frincha da janela, ia bater sobre a cama desarranjada: na alvura dos lençóis amarrotados punham notas muito vivas algumas manchas de sangue frescas, úmidas, rubras.


































Notas:


(1) Arrepiada.
(2) Prenúncios.
(3) Estimulados sexualmente.
(4) Comediógrafo romano (254-184 a.C.).



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O QUE É FEIO? O QUE É BONITO?





Nas ruas, nos supermercados, no transporte público... enfim, na vida real, dê uma olhadinha ao redor. Como são as pessoas de seu dia a dia?

Você encontra por aí, nesses lugares, mulheres com corpos esculturais e rostos perfeitos? Ou homens de largo peitoral, barriga de tanquinho e coxas maravilhosas?


Acostumamo-nos a ver, no cinema, na televisão, nas revistas, nos outdoors, seres extraordinários, ou seja, aqueles que a mídia ou os publicitários ou sei lá quem definiram como sendo “belos”.


No entanto, esses seres extraordinários ou considerados belos espécimes da raça humana são absoluta exceção no mundo real. Talvez um por cento da população – ou até menos – pudesse se enquadrar nesse padrão de “beleza”.


E mesmo os que se enquadram, assim são considerados muitas vezes à custa de dietas especiais, quilos e quilos de cremes, plásticas, malhação... e até do famoso fotoshop, que elimina todos os “defeitos” de seus corpos lisos e maravilhosos.


Aí, fico pensando: o que é, realmente, a beleza? Por que consumimos com olhos famintos o ideal praticamente impossível para as pessoas comuns e olhamos para nós mesmos e para os que nos cercam com a desconfiança de que não podem todos se expor, porque são “feios”, porque são “comuns”?



Não sei responder. Mas o que sei é que: primeiro, a tal “beleza” é apenas um conceito relativo, já que convivemos com o comum, amamos o comum, casamo-nos ou nos amigamos com o comum e é com o comum que vamos para a cama; segundo, deixemos de preconceito, portanto: não há ninguém que seja “feio” o bastante que não possa se mostrar, ou, pelo menos, olhemos de vez em quando para o tal “comum” com olhos menos preconceituosos.


Se a natureza nos fez assim, assim somos e assim podemos nos mostrar, sem que venham nos criticar, porque não temos os mesmos “predicados” impostos por um conceito de “beleza” abstrata e inatingível.


Vivam, pois, todos os corpos imperfeitos! Viva a nudez rude, sem mistérios, sem retoques, sem truques, sem sacrifícios, do homem comum e da mulher comum que frequentam nosso dia a dia!




terça-feira, 15 de novembro de 2011

SALVE A REPÚBLICA!




De “república de bananas”, passamos a um País mais sério, com crescimento econômico e diminuição das desigualdades sociais, ainda que de forma lenta. Consistente, porém, nosso desenvolvimento e já podemos até mesmo dar uma boa "banana" para os arrogantes "países desenvolvidos", com suas crises.






E, hoje, data da Proclamação da República, não será política a nossa comemoração. Quando estão em discussão as rebeldias dos jovens estudantes da USP (na briga contra a polícia no campus), relembremos outras “repúblicas”, aqueles tradicionais muquifos onde moram vários estudantes, numa bagunça geral e saudável, numa promiscuidade nem sempre desejável pelos pais que bancam os excesssos, sem saber mas sabendo, porque também fizeram o mesmo. E arrancariam, hoje, os cabelos, se tivessem certeza do que realmente rola nessas casas de jovens espalhadas pelas cidades onde há faculdades e universidades. Enfim, tão importantes quanto os estudos, as “repúblicas” (assim ditas, pelo ânimo libertário de seus habitantes - diriam alguns: de licenciosidade) fazem parte do rito de passagem de uma boa parte da juventude de todos os tempos.





Portanto, saudemos as “repúblicas”, nesse dia dedicado, republicanamente, à Proclamação de República, com um viva à democracia sexual tanto na vestusta Pátria quanto nos muquifos estudantis.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11/11/11: FIM DO MUNDO?










Datas cabalísticas sempre atiçam a imaginação de falsos profetas, de alucinados pelo além, pelas coisas impalpáveis, improváveis e nunca prováveis, seja pela lógica, seja pela ciência, seja pela vida prática.




Três “onzes” numa data, como outra qualquer. E então, brinquemos com os números: se você gosta de futebol e se o seu time não anda lá muito bem das pernas, que tal torcer, hoje, somente hoje, por um time diferente?



Que tal onze atletas que enfrentam as agruras do tempo para proporcionar o melhor espetáculo da Terra – esse mundo nosso que insiste em desafiar profecias? Regale-se... e torça para que, se o mundo tiver que acaber, que não acabe antes de um jogo com um time assim (e imagine o adversário!), num dia assim, com uma chuva assim (parodiando O. Bilac):







Ou então, se insiste em que o mundo acaba neste 11 do 11 de 2011, vamos recordar sua origem, “a origem do mundo”, na tela que deu o que falar quando exposta, lá no longínquo século XIX, que também deve ter tido seus números cabalísticos de profecias que nunca se concretizaram (que dia terá sido 11/11/1811?).



Embora hoje seja sexta-feira (outro dia aziago!!!), que tal guardar como última imagem, antes do fim, a sugestão da origem do mundo de Gustave Courbet?




(Gustave Courbet– origin of the world)



... e, já que o mundo não vai mesmo acabar, terminemos bem o dia, com os amigos no bar, ou comemorando a passagem do meteorito – que veio e foi embora, passando longe da Terra, muito longe do que poderia ser “la fin du monde”, que acontecerá, afinal, com esta outra boa companhia (machismos à parte, agrada a homens e mulheres):






Tintim:

saúde, bom sexo e longa vida a todos os sobreviventes!


Melhor, ainda:



















terça-feira, 8 de novembro de 2011

CAMILA SINTRA: VOCÊ A CONHECE?




Desta vez, o “google” me derrubou: só consegui saber que Camila Sintra é de São Paulo e tem 56 anos (quando?).

Há vários poemas dela espalhados pela rede. Catei um, e escolhi-o pela forma desabrida de escrever, sem meios termos, um poema descarado e muito, muito bom.

Assim deve ser o escritor/poeta: sem medo das palavras. Elas estão lá, como diz o Drummond, em “formato de dicionário”. Basta pegá-las, usá-las e fazer delas um momento de beleza, de erotismo, de tesão.

Com vocês, Camila Sintra, com ilustrações de Paul Émille Bécat:





Arrepios





o beijo nos lábios
arrepia o pescoço


a mão nas tetas
arrepia os mamilos


a língua no grelo
arrepia a espinha


o dedo no cu
arrepia o ventre


o pau na boceta
arrepia até a alma


e teu olhar no meu
arrepia-me como mais nada...